Soldados Turcos em Encontro Amigável com o ISIS

Aliado da OTAN, enquanto isso treinam ‘moderados’ para lutarem contra os jihadistas

 

por E. Michael Maloof,

 

Soldados turcos e jihadistas do ISIS despedem-se uns dos outros em uma imagem de um vídeo de notícias curdas (cedida pelo Instituto de Pesquisa de Mídia do Oriente Médio)

 

WASHINGTON – O Pentágono diz que o membro da OTAN, a Turquia, vai treinar os combatentes “moderados” para enfrentarem as forças jihadistas do ISIS, no Iraque e na Síria, mas um novo vídeo mostrando os soldados turcos em aparente solidariedade com os combatentes do ISIS, afirma as preocupações de que Ancara está jogando em ambos os lados.

O vídeo, divulgado pela agência de notícias curda, DIHA, e traduzido pelo Instituto de Pesquisa de Mídia do Oriente Médio, ou MEMRI, mostra os soldados turcos e os combatentes do ISIS em “despedindo-se entre si”.

O MEMRI disse que a Turquia “apoia às gangues do ISIS, que está constantemente na agenda internacional e tem sido documentado, mais uma vez”.

O apoio próximo dado ao ISIS, disse o MEMRI, contrasta com o tratamento das dezenas de civis da cidade sitiada de Kobane, na fronteira turco-síria, que ficaram esperando durante horas por soldados turcos da fronteira “e perderam suas vidas como resultado disso”.

Sob o título de “reuniões íntimas entre soldados turcos e o ISIS”, o vídeo mostra cinco membros do ISIS que chegam à fronteira, onde os cidadãos de Kobane deixaram seus veículos. Os membros do ISIS “queimam a propriedade” dos cidadãos de Kobane, antes disso eles tiram qualquer coisa útil dos carros e vão em direção ao povoado de Siftek, que está sob seu controle.

 

 

A DIHA disse que dois membros do ISIS, em seguida, chegam à fronteira e conversam com sete soldados turcos, que saem de um veículo blindado.

Depois de cerca de meia hora, eles “dizem adeus um ao outro e deixam a área”.

“Embora o que foi dito na conversa não seja conhecido, as gangues (membros do ISIS), que disseram adeus aos soldados vão estar se preparando para perpetrar novos massacres”, disse a DIHA.

Brigadas

Em uma coletiva de imprensa não-oficial, um porta-voz do Pentágono disse que um grande número de combatentes “moderados” terão de ser treinados. Mas ele não ofereceu números e nem um calendário para enfrentar os combatentes do ISIS, que continuam a ganhar território no Iraque e na Síria, apesar do bombardeio aéreo da coalizão, liderado pelos Estados Unidos, das suas posições em ambos os países.

Pressionado a dar um número, o porta-voz relatou que até seis brigadas de combatentes precisam ser treinados.

Uma brigada do Exército dos EUA é composta de 3.200 a 4.000 soldados e é, aproximadamente, equivalente a um regimento. Três ou mais brigadas constituem uma divisão. Com efeito, a intenção do Pentágono é treinar o que equivale a cerca de duas divisões de combatentes “moderados” da oposição síria.

A administração Obama já anunciou que até 5.000 opositores sírios seriam treinados na Arábia Saudita durante um período de um ano.

O general Martin Dempsey, presidente do Joint Chiefs of Staff, admitiu em uma entrevista no Pentágono na semana passada que os EUA ainda não começou examinar os rebeldes sírios para a força anti-ISIS na Síria.

Virando-se para o ISIS

O número projetado de combatentes “moderados” veio de um relatório da ONU  que revelou que cerca de 15.000 jihadistas de 80 países têm inundado a Síria desde 2010 para combater o ISIS.

O relatório caracteriza o afluxo como “uma escala sem precedentes”, incluindo “os países que ainda não tenham enfrentado desafios relacionados com a al-Qaeda”.

O relatório da ONU, postado por uma comissão do Conselho de Segurança da ONU, não identificou os 80 países.

Ele acrescentou que era incerto se os combatentes estrangeiros estavam ou não se juntando à Al-Qaeda, apesar de o líder da Al-Qaeda, Ayman al-Zawahiri “parece manipular a relevância desses combatentes”.

O relatório disse que o declínio da Al-Qaeda nos últimos anos resultou em jihadistas se voltando para outros grupos, principalmente o ISIS.

“O núcleo da Al-Qaida e do ISIS perseguem objetivos estratégicos semelhantes, embora com diferenças táticas a respeito do sequenciamento das ações e diferenças substantivas sobre a liderança pessoal”, disse o relatório da ONU.

O relatório salienta os alertas de que combatentes estrangeiros poderiam retornar a partir das zonas de guerra na Síria e no Iraque para realizarem ataques em suas terras natais.

 

 


O ISIS dividiu-se no início deste ano da al-Qaeda sobre as diferenças políticas entre Zawahiri e o líder do ISIS Abu Bakr al-Baghdadi, que declarou um califado sobre o território que os seus combatentes tomaram na Síria e no Iraque.

Ambiguidade

Além da Arábia Saudita, o porta-voz do Pentágono disse que a Turquia, de modo semelhante, iria treinar os combatentes da oposição síria.

Os combatentes estrangeiros que se juntaram ao ISIS, no entanto, utilizam a Turquia como a principal via para a Síria. A Turquia permite que os combatentes do ISIS vão e voltem da Turquia para a Síria e continuam a comprar o petróleo, com preço abaixo do mercado, de áreas ocupadas pelo ISIS na Síria e no Iraque.

Além disso, o governo turco está incentivando suas atividades comerciais a investirem em áreas ocupadas pelo ISIS no Iraque.

A Turquia, juntamente com a Arábia Saudita e outros países árabes que pertencem à coalizão liderada pelos Estados Unidos, deixaram claro que o seu principal objetivo em apoiar aos combatentes da oposição síria não é eliminar a ameaça do ISIS, mas derrubar o governo do presidente sírio, Bashar al-Assad, um xiita, alauita que é aliado xiita do Irã.

O aparente conflito nos objetivos da coalizão anti-ISIS, liderado pelos EUA, lançou a questão como um palco para o fim do processo de coalizão com o governo de Obama que uma vez que os EUA já declarou que o objetivo é eliminar a ameaça do ISIS, e não Assad.

A ambigüidade também vem com os cerca de 200 intitulados “combatentes moderados da oposição síria” que se juntaram a Frente Jabhat al-Nusra, afiliada da al-Qaeda, no último fim de semana, levantando preocupações sobre a forma como a administração Obama pretende vasculhar as várias facções de combatentes jihadistas para distinguir sua lealdade para combaterem o ISIS.

 

* Artigo traduzido por mim, link original do artigo aqui: Turkish soldiers in friendly encounter with ISIS

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