O Endurecimento do Coração de Faraó

coracaopedra

 

Compartilhando aqui alguns comentários sobre um questionamento feito a respeito da questão do “endurecimento do coração de Faraó” … a idéia não é esgotar o assunto, mas quem sabe essas informações podem vir a ser úteis …
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Os termos que descrevem o endurecimento do coração de Faraó aparecem por vinte vezes em Êxodo (do capítulo 4 ao 14). Na descrição desse endurecimento são utilizados 3 verbos hebraicos: חזק (chazaq), כבד (kabad) ou כבד (kabed) e קשׂה (qashah). O significado básico de chazaq é “ser forte, duro“, a mesma raiz de Ezequias onde diz “o Senhor é a minha força“, e de Ezequiel onde diz “que Deus fortaleça“, num contexto negativo o significado seria mais para “cabeça-dura“. O verbo kabad significa “ser pesado” e essa palavra, além de descrever o coração, também pode descrever os olhos (Gn 48:10), os ouvidos (Is 6:10), ou a boca e a língua (Êx 4:10); onde cada uma dessas referências diz respeito ao mau funcionamento de um órgão em especial, quer em virtude de idade ou de doença. O verbo qashah significa “ser duro, severo, difícil“. Dos 3 verbos chazaq é o mais utilizado, 11 vezes; logo após vem kabad, 7 vezes e depois qashah, 2 vezes.

É curioso observar que, somente após a sexta praga vir sobre os egípcios é que vemos alguma referência a Deus endurecendo o coração de Faraó. Existem apenas duas referências a Faraó endurecendo o próprio coração (Êx 9:34,35) após Deus o ter feito. Certamente há relevância no fato de que, mesmo após Deus ter endurecido o coração de Faraó (Êx 9:12), o soberano do Egito, pelo menos mais uma vez, foi capaz de endurecer o seu próprio coração (Êx 9:34). Depois disso, contudo, é Deus e apenas Deus, que endurece o coração de Faraó. É como se a janela de oportunidade de Faraó tivesse se fechado.

Teria sido um acidente tudo isso? Querem as Escrituras dizer que Faraó, agora tão intransigente com Deus, havia perdido o direito de optar de forma consistente ou independente? A liberdade pode ser revogada? Sabemos que Faraó, pelo menos durante algum tempo, teve controle sobre as suas escolhas, mas jamais teve sobre as consequências dessas mesmas escolhas.

É interessante lembrar que durante o processo, Deus por diversas vezes tentou sensibilizar o coração de Faraó. O fez isso por meio de Moisés (Êx 8:8, 8:24), pelo testemunho de seus próprios mágicos (Êx 8:19), levando-o ao arrependimento, ainda que parcialmente (Êx 9:27) e mesmo assim Faraó continuou a pecar (Êx 9:34).

Vale lembrar que Paulo, em Romanos do capítulo 9 ao 11, se refere ao endurecimento do coração de Faraó e a ação de Deus (Rm 9:17-18 e 11:7,25). Isso mostra tanto a soberania divina quanto a liberdade moral do homem. Não deixa de ser interessante observar que, em Romanos, a palavra “misericórdia” (ελεεω eleeo) aparece 11 vezes, sendo que 9 delas estão nos capítulos 9 ao 11.

Que diremos, pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra. Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz.” (Romanos 9:14-18)

O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do SENHOR. Todos os caminhos do homem são puros aos seus olhos, mas o SENHOR pesa o espírito. Confia ao SENHOR as tuas obras, e os teus desígnios serão estabelecidos. O SENHOR fez todas as coisas para determinados fins e até o perverso, para o dia da calamidade. Abominável é ao SENHOR todo arrogante de coração; é evidente que não ficará impune. Pela misericórdia e pela verdade, se expia a culpa; e pelo temor do SENHOR os homens evitam o mal. Sendo o caminho dos homens agradável ao SENHOR, este reconcilia com eles os seus inimigos. Melhor é o pouco, havendo justiça, do que grandes rendimentos com injustiça. O coração do homem traça o seu caminho, mas o SENHOR lhe dirige os passos.” (Provérbios 16:1-9)

Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade? Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra? Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios? Assim como também diz em Oséias: Chamarei povo meu ao que não era meu povo; e amada, à que não era amada; e no lugar em que se lhes disse: Vós não sois meu povo, ali mesmo serão chamados filhos do Deus vivo. Mas, relativamente a Israel, dele clama Isaías: Ainda que o número dos filhos de Israel seja como a areia do mar, o remanescente é que será salvo. Porque o Senhor cumprirá a sua palavra sobre a terra, cabalmente e em breve; como Isaías já disse: Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado descendência, ter-nos-íamos tornado como Sodoma e semelhantes a Gomorra.” (Romanos 9:19-29)

Aonde, portanto, tudo isso leva a humanidade? Esse é o interesse de Romanos 9:30 até 10:21. É importante não parar em Romanos 9:29. Afinal, Deus é soberano sim, mas isso não nega a liberdade humana.

Paulo compara o endurecimento de Faraó ao endurecimento dos judeus; em ambos os casos, Deus usa esse endurecimento visando à redenção. Ele endureceu o coração de Faraó e o resultado foi a libertação dos Israelitas do Egito. Ele endureceu os judeus, o resultado é que foi permitido aos gentios que participassem do Reino de Deus. Esse endurecimento é permanente? Romanos 11:26 dá a resposta final: “E, assim, todo o Israel será salvo, como está escrito: Virá de Sião o Libertador e ele apartará de Jacó as impiedades“.

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